
Em sua primeira reportagem especial, o Saquarema da Informação entrevista uma moradora da Ucrânia e especialistas internacionais sobre a Guerra. Este trabalho faz parte da disciplina de Jornalismo Internacional da Universidade Federal Fluninense.
No ano de 2014, a Rússia anexou a Crimeia ao seu território, que até então era da Ucrânia. Isso aconteceu enquanto a Ucrânia passava por fortes protestos (Revolução da Dignidade), que resultaram na queda do presidente Viktor Yanukovych, aliado de Moscou. A Rússia considerou essa mudança um risco para sua influência na região. A maior parte dos países não consideram a Crimeia território da Rússia e a anexação foi amplamente condenada como violação do direito internacional, se iniciando uma guerra, já que, em abril do mesmo ano grupos separatistas pró-Rússia declaram independência das regiões de Donetsk e Luhansk, com apoio russo. Acordos de cessar-fogo foram assinados, mas nunca cumpridos totalmente.
Entre os anos de 2016 e 2020, a guerra continuou, mas sem muito avanço territorial. Até que, em 2021, a Rússia começou a movimentar grandes contingentes militares para próximo da Ucrânia, aumentando as tensões internacionais. Na época, a Rússia exigiu que a Ucrânia não entrasse na OTAN, Organização do Tratado do Atlântico Norte, a aliança militar formada por vários países da Europa e da América do Norte. Em fevereiro de 2022 a Rússia realizou uma invasão em larga escala contra a Ucrânia com ataques em diversos municípios ao mesmo tempo. Nos anos de 2023 e 2024, os ataques de ambos países continuaram, em 2023 ela se aprofunda em termos de logística, ajuda internacional à Ucrânia, e sanções à Rússia. Por exemplo, vários países aliados intensificam o envio de armamentos e apoio militar, e em 2024 houve avanços russos no leste da Ucrânia, com intensificação de combates, além das incursões da Ucrânia em território russo, as duas com focos na infraestrutura.
Ao todo, 87.458 pessoas morreram no conflito neste último ano, entre julho de 2024 e junho de 2025, segundo o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, sendo essa uma das 36 guerras ativas no mundo. Estima-se que 1.500 a 2.000 dos falecidos no último ano eram civis. Além de todo esse número de mortos, segundo o relatório “Ukrainian Economy in 2024: Special Edition of the Tracker”, do Centre for Economic Strategy (CES), até o fim de 2024, a taxa média de desemprego era de 14,3% na Ucrânia, apesar disso, tinha 17,4% em 2023 e 18,5% em 2022.

O Consultor(a) de Recrutamento na DistantJob, e morador da Bulgária, Vasyl Storchak, afirma que na área de TI, por exemplo, “o que antes era normal levar um ou dois meses, agora virou algo de meio ano a um ano por causa de toda essa situação do mercado. Agora tudo parece muito sombrio. Se uma em cada duas pessoas tem um emprego, isso já é considerado bom e isso levando em conta que um número significativo deixou o país ou está no exército.
Segundo Vasyl, o período econômico mais difícil pode chegar não durante a guerra, mas depois dela e isso pode durar décadas. “É improvável que empresas vejam a Ucrânia como um lugar atraente para contratar. Se a guerra tivesse durado apenas meio ano, tudo estaria bem, mas isso já não é possível. No início da guerra, trabalhei em uma grande empresa de outsourcing, e dentro dos primeiros seis meses ela começou uma reestruturação completa — abrindo escritórios na Bulgária e Romênia e contratando mais pessoas na Polônia. Agora, muitas empresas, se contratam ucranianos, preferem aqueles que já estão no exterior”, afirma o consultor.
Em novembro, a Europa (Alemanha, França e Reino Unido) e os Estados Unidos, fizeram diferentes propostas de planos de paz para a Guerra, mas a escolha de um desses planos pode ser um um ponto crítico para o futuro da Ucrânia.
As propostas de paz apresentadas pelos Estados Unidos e pelos países europeus mostram grandes diferenças sobre o futuro político e militar da Ucrânia. No plano norte-americano, há a exigência explícita de que a OTAN não se expanda e de que a Ucrânia concorde em não ingressar na aliança, enquanto o texto europeu remove essa proibição e afirma apenas que qualquer adesão depende do consenso dos membros, mantendo a porta aberta para uma futura entrada. As divergências também aparecem no tamanho das Forças Armadas ucranianas: Washington defende um limite de 600 mil militares, ao passo que a Europa permite até 800 mil em tempos de paz. Em ambos os casos, sem qualquer imposição de redução ao Exército russo, que permanece muito maior.

O mestre internacionalista, especialista em defesa e segurança global, Perry Boyle, de Idaho, nos Estados Unidos, diz que “a abordagem dos Estados Unidos é totalmente focada em como o país pode lucrar com a Ucrânia, independentemente de quem controle o território. Já a abordagem europeia busca preservar a democracia na Ucrânia. A Rússia continua fortalecendo sua máquina de guerra enquanto a Europa interrompe o financiamento para a defesa da Ucrânia, levando a uma terceira invasão russa que a Ucrânia não conseguiria suportar.”
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Além dos pontos citados anteriormente, outro está relacionado às eleições ucranianas: o plano dos Estados Unidos exige que o país realize o pleito em até 100 dias após um acordo, enquanto os europeus adotam uma formulação mais flexível, indicando apenas que o processo deve ocorrer “o mais rapidamente possível”. No geral, o plano norte-americano é visto como mais favorável à Rússia, por prever concessões territoriais permanentes e impor limitações significativas à soberania da Ucrânia, enquanto a proposta europeia é considerada mais alinhada a Kiev, ao evitar reconhecer anexações e não impedir futuras alianças militares.
Uma moradora e empresária de Tchernivetsk, na Ucrânia, Anna Kubieieva, afirma que o Leste e o Centro da Ucrânia são os que mais sofrem com a guerra. Porém, em todas as regiões as pessoas sentem ansiedade e incerteza, afirmando também que os moradores da Ucrânia estão esperançosos de que a guerra acabe, mas não acreditam que ela terminará rapidamente. Ao ser questionada sobre o plano de paz, ela disse que “confia exclusivamente no da Europa; a maioria dos ucranianos não confia nos EUA enquanto Trump for presidente.”
No último dia 24 de novembro, o Kremlin, residência oficial do Presidente da Rússia e sede do governo, disse que a contraproposta da Europa para a Ucrânia não é construtiva e não funciona para a Rússia. Já a dos Estados Unidos foi mais agradável para a Rússia, mas sem muita evolução, Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA, informou que as negociações vão continuar na primeira semana de dezembro.

Segundo o negociador, autor, analista de acordos, conflitos e geopolítica, Gerry Parran, morador de Chicago, nos Estados Unidos, três referências históricas podem orientar um possível acordo para encerrar a guerra na Ucrânia: o Armistício da Coreia, a reconstrução da Alemanha Ocidental e as falhas dos Acordos de Minsk. Ele defende que a solução mais viável combina elementos desses três modelos: congelar as linhas de frente com fiscalização internacional, acelerar a integração econômica e política da Ucrânia à União Europeia e estabelecer mecanismos rígidos de monitoramento e punição para violações. Para Parran, esse caminho que exige coordenação entre EUA e Europa preservaria a soberania ucraniana, reduziria o risco de novos ataques e criaria condições para reconstrução e estabilidade duradoura.
Soldados da Ucrânia que estão participando da Guerra reagiram negativamente à proposta de paz feita pelos Estados Unidos.
Em entrevista ao BBC, o soldado Yaroslav, no leste da Ucrânia, afirma que é “péssimo… ninguém irá apoiar”.
Entre anos de guerra, o que resta à Ucrânia é um futuro que ainda não foi escrito. As propostas, disputas e divergências internacionais mostram que o caminho para a paz não será simples nem linear. Enquanto soldados rejeitam acordos e civis tentam reconstruir rotinas interrompidas, líderes globais traçam linhas que podem redefinir o mapa político da Europa. No intervalo entre o presente incerto e um amanhã possível, o que permanece é a pergunta que ecoa de Kiev a Washington: qual será o preço definitivo do fim desta guerra?’